Fábio Berlinga
Do Diário do Grande ABC
A
grande exposição, mesmo que negativa, do islam, principalmente após os
atentados de 11 de setembro em 2001 ao World Trade Center, em Nova
York, contribuiu para o crescimento da religião entre os
não-muçulmanos. É o que acredita o Sheikh Ali Abdune, presidente no
Brasil da Wamy (Associação Mundial da Juventude Islâmica) e da mesquita
de São Bernardo,
Com 1,3 bilhão de fiéis em todo o mundo,
apenas nos Estados Unidos, a legião de seguidores aumentou cerca de 3
milhões nos últimos cinco anos. No Brasil, o Sheikh afirma serem 1,5
milhão de muçulmanos. Destes, 700 estão no Estado de São Paulo. Cerca
de 300 famílias muçulmanas moram em São Bernardo. Apesar de não ter
números, o Sheikh diz que é visível o aumento de interesse do jovem pela
religião. Inclusive de pessoas que freqüentam a mesquita da cidade, mas
que não têm origem muçulmana.
“Nós temos um site em língua
portuguesa sobre a religião muçulmana. Ali centenas de pessoas de
não-muçulmanos entram querendo mais informações sobre o islam. Muitas
acabam aderindo”, explica Abdune.
A expansão do universo
muçulmano e a adaptação dos convertidos às leis do islam foram alguns
dos assuntos da entrevista exclusiva do Sheikh Abdune ao Diário,
concedida no escritório da Wamy, em São Bernardo.
Ele falou
também sobre o mês do Ramadã (setembro), período sagrado para os
mulçumanos. Mês que o profeta Maomé teria recebido de Deus os versos do
Alcorão. Durante setembro, os muçulmanos, desde o nascer ao pôr-do-sol,
não podem comer, beber ou praticar sexo. Leia abaixo os principais
trechos da entrevista.
DIÁRIO – Para os não-muçulmanos, o islam é
marcado por dois estigmas: o fanatismo e a violência. O que o senhor
tem a dizer sobre isso?
Ali Abdune – A religião muçulmana veio para
que as pessoas sigam a paz, o equilíbrio. Então a pessoa que seguir as
leis do Alcorão, que vieram através do profeta Mohamed (Maomé, em
árabe) estará seguindo o equilíbrio e não o fanatismo ou o extremismo.
O fanatismo surge quando as pessoas se afastam das leis de Deus.
DIÁRIO – Onde é que o fanatismo entra nessa questão da violência? O senhor acredita que ele tem influência nisso?
Ali
Abdune – Olha, se tem, tem muito pouco. Agora o que é passado para nós,
através da mídia, é que todo o islam é fanático; todos muçulmanos são
fanáticos. Só que, na realidade, é o contrário; é a minoria. Agora em
relação à violência, à guerra, temos de saber o que motivou aquilo e
também o que que levou a esses extremistas a serem extremistas. Quem
provocou a guerra no Iraque? A guerra no Afeganistão? Com certeza que
não foram os muçulmanos. Agora, tem ali as pessoas que se defendem e
isso é natural. Todo país tem o seu exército; todo país tem as suas
armas; todo país tem. No Iraque, entraram procurando armas químicas e
não encontraram. Quando descobriram isso – o que, na verdade eles já
sabiam desde o início –, disseram que Saddam Hussein estava cometendo
massacres. Tudo bem, capturaram o Saddam. Só que não saíram mais do
Iraque. E a violência aumentou devido a presença dos americanos e das
demais tropas estrangeiras que estão ali dentro. Isso é que está
gerando o extremismo. Eles (os americanos) é que fabricam esse
extremismo. O que está acontecendo com os combatentes presos pelos
soldados americanos nem nos campos de concentração nazistas aconteceu.
E isso está nas câmeras de TVs, nos jornais, nas revistas e
infelizmente os julgados são os que reagem. Eu sou morto, massacrado,
torturado, a minha casa foi demolida. Na hora em que eu reagi um pouco;
eu sou extremista, eu sou terrorista.
DIÁRIO – O senhor disse
anteriormente que a comunidade islâmica está em crescimento. Aqui em
São Bernardo, a maioria das pessoas que freqüenta a mesquita é
descendente de muçulmanos ou não?
Ali Abdune – A maioria é de origem
muçulmana, mas há vários irmãos que se converteram. No mundo ocidental,
sentimos esse crescimento notavelmente.
DIÁRIO – A que o senhor acha que se deve esse crescimento?
Ali
Abdune – A grande propaganda que a mídia está fazendo. A propaganda
contra, principalmente depois (dos atentados) do 11 de Setembro. Foi aí
que vimosmuitas pessoas assistindo às cenas veiculadas pela mídia sobre
os extremistas. Elas querem saber: “O que vocês são?” “O que é o islam?”
E na hora que explicamos o que é a religião, ela acaba aderindo. Em
relação aos Estados Unidos, parece incrível, mas podemos falar que o
lugar onde a religião muçulmana mais cresce é lá. Hoje tem 10 milhões
de americanos muçulmanos convertidos ao islam. Antes de 11 de setembro
de 2001, eram cerca de 7 milhões.
DIÁRIO – Existe algo de
anti-americano ou anti-George W. Bush pelo menos, antiimperialismo
alguma coisa assim? Ou é uma busca espiritual mesmo?
Ali Abdune – É
procura espiritual. Hoje nós estamos num mundo mais ligado ao lado
materialista. As pessoas estão sentindo um vazio por dentro; elas
querem se aproximar de Deus, porque somos feitos de corpo e alma.
DIÁRIO – Em São Bernardo, existe um perfil dessas pessoas que se convertem?
Ali Abdune – A maioria é jovem.
DIÁRIO – E como é que se dá essa mudança no jovem? As mulheres, por exemplo, têm que se vestir de maneira diferente...
Ali
Abdune – Na realidade, isso não é difícil porque a religião muçulmana
não impõe. A pessoa se converte por livre e espontânea vontade. É
diferente do que se ouve por aí, que a mulher não tem direito de
escolher o seu parceiro.Ela tem direito de escolher, ela tem o direito
de divorciar-se, se não conviver bem com ele. A roupa é para preservar
a mulher. O lenço e a roupa devem cobrir os cabelos, pés, mãos, o
pescoço. Para que a mulher não seja cobiçada, por nós homens.
DIÁRIO
– Após a conversão, como é que fica a readaptação dessas pessoas,
porque muitas dessas mulheres e homens trabalham. Como fica essa
questão de parar para fazer oração cinco vezes por dia? Já vieram
reclamar para o senhor?
Ali Abdune – Muito pouco. Em relação à
oração, não requer mais do que cinco minutos, e pode ser feita em
qualquer lugar. Em relação à vestimenta, vivemos num país onde as
pessoas compreendem essas questões. Nós temos até uma irmã convertida
ao islam que trabalha na guarda municipal em Santo André e ela usa o
lenço.
DIÁRIO – Quanto aos jovens, existe a questão da
sexualidade. Como é tratada? A religião católica, por exemplo, trata o
sexo com um certo olhar severo, O sexo antes do casamento e o uso de
preservativo são condenados. Diante do problema da Aids e da gravidez
indesejada. Como lidar com o assunto?
Ali Abdune – Todas as
religiões monoteístas proíbem as relações sexuais antes do casamento. O
islam toca muito nessa questão, nesse ponto, incentiva os jovens, tanto
os rapazes, como as moças a se casarem cedo, antes dos 20 anos, de
preferência. Os muçulmanos são ensinados já desde pequenos a construir
uma família.
DIÁRIO – Mas existe uma orientação? No caso de
meninos, por exemplo, que convivem com outras meninas, que não são
muçulmanas, logo não estão com os corpos totalmente cobertos. Não
existe uma conversa: “Olha! Se não resistir à tentação, use a
camisinha”. Não existe esse tipo de preocupação dos pais com o uso do
preservativo?
Ali Abdune – A orientação não é sobre o uso da camisinha, mas sobre o próprio ato que, com ou sem camisinha, é proibido.
DIÁRIO – Depois do casamento, o controle de natalidade é permitido?
Ali Abdune – Os métodos anticoncepcionais são permitidos, desde que não sejam definitivos, sejam em homens ou mulheres.
DIÁRIO – Como é o Ramadã para os recém- convertidos ou para os jovens?
Ali
Abdune – Antes de se converterem, as pessoas pensam que são coisas
difíceis, o jejum, as orações, a abstinência sexual. Depois, passa a
achar normal. Não tem dificuldade alguma. Até os fumantes conseguem
ficar sem o vício durante o dia.
|