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Sheik
Ali Abdune
Título da Matéria: Um
Sheik na Roda
Entrevistadores: Marina Amaral, Mamede
Mustafá Jarouche, Michel Gordon,
José Arbex Jr, Georges Bourdoukan,
Carlos Azevedo.
O Sheik Ali Abdune, presidente no
Brasil da Associação Mundial
da Juventude Islâmica, foi convidado
por Caros Amigos para falar das leis
do Islã, a religião que
conta com 3 bilhões e 350 milhões
d seguidores no mundo. Mas foi provocado
a falar de outros assuntos, e a entrevista
tornou-se um debate, no qual ele acabou
trazendo informações e
externando opiniões como estas:
Bin Laden não tem nada a ver
com os atentados de 11 de setembro;
a CIA não quer descobrir os autores
dos atentados; ato terrorista também
é morrerem de fome no Brasil
6.000 crianças por mês;
havia uma mesquita dentro do World Trade
Center de Nova York; 1.000 civis afegãos
já haviam sido mortos pelos bombardeios
americanos até o fim de outubro;
não existe hoje no mundo um único
governo cem por cento islâmico.
Falou-se muito sobre o tratamento dado
à mulher nos países muçulmanos,
que para o sheik sempre foi mais igualitário
do que nos países ocidentais.
Marina
Amaral –
O senhor poderia começar explicando
o que é um sheik, e como chegou
a esse título?
Sheik
Ali Abdune – Tudo bem.
A palavra sheik, em árabe, significa
ancião. Antigamente, nas tribos
ou sociedades em que viviam, as pessoas
que queriam alguma orientação
procuravam os mais velhos, mais experientes,
que tinham mais vivência. E essa
denominação – sheik
– foi passada depois para os líderes
muçulmanos, que são os
orientadores na sociedade muçulmana,
para a qual a religião é
um código de vida geral, que
age em todos os campos: o político,
o social, o financeiro, então,
as pessoas, quando buscam orientação,
pedem para os sheiks, que são
os orientadores da comunidade em relação
à religião muçulmana.
Para ser um sheik, basta fazer uma universidade
de teologia islâmica – que
aqui no Brasil não temos, tem
de ir para fora, para a Arábia
Saudita, Egito, Líbano, Síria,
ou para os demais países que
têm essas universidades. No meu
caso, cursei durante seis anos uma universidade
de teologia islâmica em Medina,
na Arábia Saudita.
Carlos Azevedo –
Você nasceu onde?
Sheik
Ali Abdune - Nasci no Brasil,
em Mato Grosso do Sul, em Três
Lagoas. Só que com um de idade,
mais ou menos, fui para o Líbano.
Voltei com 9 ou 10 anos. Aqui cursei
até o colegial e depois fui para
Medina, em 1985, e me formei em 1991.
Depois de formado, fui para o Líbano
mais uma vez, e fiquei um ano e voltei
para cá faz quase dez anos.
José Arbex Jr –
Você escolheu Medina por quê?
Você é wahabita?
Sheik
Ali Abdune – Há
universidades que cedem bolsas de estudo
em diversos países árabes,
como Arábia Saudita, Egito, Líbano,
Síria, entre outros, mas foi
na Arábia que consegui a minha
bolsa. Fui para lá por opção,
mas em qualquer país árabe
o ensino é o mesmo.
José Arbex Jr –
Não depende de você fazer
uma escola xiita, sunita ou wahabita,
o ensino é o mesmo?
Sheik
Ali Abdune – Todos os
princípios da religião
muçulmana são os mesmos,
só que há algumas ramificações
que surgiram depois da morte do profeta
Muhamad. O que o sheik estuda são
todos os princípios básicos
que a religião muçulmana
ensina e sua história, como estuda
também todas as ramificações.
Os xiitas, os wahabitas, etc. , todos
voltam aos mesmos princípios;
algumas ramificações fogem
pouco, mas não ferindo os princípios,
que continuam sendo muçulmanos.
Georges Boudukan –
Os wahabitas, dentro do islamismo, seriam,
digamos assim, os puristas. Sendo sheik,
como você encara o fato de a Arábia
Saudita, onde estão Medina e
Meca, ou seja, a guardiã do islamismo,
abrir as portas para o exército
americano? Por que isso me lembra muito
as cruzadas – Saladino e Baybar
conseguiram expulsar os últimos
cruzados, mas jamais na história
das cruzadas houve um governo árabe
ou um principado, ou um emirado que
abrisse as portas para que os ocidentais
entrassem.
Sheik
Ali Abdune – Os wahabitas,
como os demais, têm a mesma ideologia,
os mesmos princípios. Todos os
caminhos dos wahabitas, dos salafitas,
das demais ramificações
vão te levar ao mesmo pricípio.
Quanto à questão de a
Arábia Saudita abrir as portas
para o exército americano, é
questão política. Depois
da derrubada do Império Islâmico,
em 1924 – o Império Islâmico,
desde a morte do profeta Muhamad até
1924, durante catorze séculos,
sempre reinou sobre toda aquela parte
do mundo -, houve essa divisão
do Oriente de termos um país
chamado Arábia, Síria,
Líbano, Iraque, Palestina, mas
antes todos eles eram estados governados
por um único califa. Com a divisão,
é claro que esses líderes
dependem mais da questão ocidental
– depois da derrubada do Império
Islâmico, a Grã-Bretanha
e a França dividiram a região
e foram muito objetivas na escolha de
quem seria o líder de cada país.
Então, há essa ligação
forte entre os governos e essas parte
ocidentais. Agora, a questão
política que surgiu em 1991,
de Sadddam Hussein invadir o Kuwait
dizendo que fazia parte do Iraque –
todos os países ali, principalmente
do golfo Pérsico, sentiram que
poderiam ser ameaçados pela fachada
que os Estados Unidos colocaram: que
Saddam Hussein, tomando o Kuwait, poderia
ir para a Arábia Saudita, poderia
dominar os outros países do golfo
Pérsico; então se abriu
essa hipótese de que os Estados
Unidos iriam lá para proteger
o petróleo, aqueles países
e os líderes que estão
estabelecidos naqueles locais.
Marina
Amaral - O nosso tema é
basicamente a religião. Acho
que deveríamos aprofundar essa
questão da tolerância.
Gostaria que o senhor explicasse, por
exemplo, como no Alcorão são
vistos Jesus Cristo, a Virgem Maria,
os profetas judeus...
Sheik
Ali Abdune - Para conhecermos
uma religião, nada melhor que
conhecer seus princípios, porque
a partir deles você vai construir
as demais idéias. Os princípios
da religião muçulmana:
todo muçulmano deve crer em seis
pilares básicos. Primeiro pilar:
crer em Deus, que é o absoluto
em todos os sentidos, o criador de tudo
o que existe; e o imortal, tudo além
dele é mortal. Somente esse Deus
é merecedor de adoração.
Deus de Abraão, Deus de Moisés,
Deus de Jesus, Deus de Muhamad, Deus
de todos os mensageiros. Crer nesse
Deus, que em árabe é Allah.
Um judeu ou cristão ou muçulmano
árabes, todos vão falar
para você que o nosso deus é
Allah. Segundo pilar: crer nos anjos,
que são criaturas que Deus criou
da luz. Como nos criou do barro, criou
os gênios da labareda do fogo.
Terceiro pilar: crer nas mensagens sagradas
reveladas por Deus. Nós, muçulmanos,
cremos em cinco mensagens que Deus mandou
para toda a humanidade. E qualquer muçulmano
que deixa de crer numa delas deixa de
ser muçulmano. Essas cinco mensagens
são: 1º. as Escrituras reveladas
ao profeta Abraão e Moisés;
2º. o Velho Testamento, que é
a Torá revelada ao profeta Moisés
– segundo livro; 3º. os Salmos
revelados ao profeta Davi – é
o terceiro livro; 4º. o Novo Testamento,
que é o Evangelho revelado ao
profeta Jesus; 5º. o Alcorão
revelado ao profeta Muhamad. E, desses
livros, seguimos sempre o último,
embora crendo no anterior. Se estivéssemos
no tempo de Jesus, deveríamos
crer nas mensagens anteriores a ele,
seguindo as mensagens de Jesus. Se estivéssemos
no tempo de Moisés, seguiríamos
a mensagem de Moisés, mas crendo
nas mensagens anteriores. Veio o profeta
Muhamad, que é o último
mensageiro, seguimos a última
mensagem, crendo nos princípios
ou nas mensagens anteriores a ele. Agora,
para ficar claro: as Escrituras, a Torá,
os Salmos, o Evangelho, o Alcorão,
escritos em português, inglês,
espanhol etc., nenhum deles é
a palavra de Deus. A palavra de Deus
é aquela que desceu na sua originalidade:
o Alcorão em árabe, assim
como todos os outros em suas línguas
originais.
Marina
Amaral - Muhamad não
é o messias como é Jesus
para a religião católica,
aquele que é o filho de Deus?
Sheik
Ali Abdune - Aí já
entramos no quarto pilar, que é
a crença nos mensageiros que
Deus mandou para a humanidade no decorrer
do tempo. O primeiro foi o profeta Adão,
que é o pai da humanidade, e
o último foi o profeta Muhamad,
que selou as mensagens de Deus. Após
o profeta Muhamad não virão
mais mensageiros. No decorrer desse
tempo, entre Adão e Muhamad,
Deus mandou para a humanidade 124.000
profetas e mensageiros, dentre eles
os profetas Noé, Abraão,
Isaac, Ismael, José, Salomão,
Davi, Moisés, Jesus, até
o último, Muhamad. Cada um teve
a sua mensagem, teve seus milagres,
e os milagres não significam
que esses profetas deveriam ser filhos
ou sócios de Deus. E aí
entramos na sua pergunta. Jesus, para
nós, foi um grande profeta, e
da Virgem Maria o profeta Muhamad disse:
“Dentre os homens, se completaram
muitos – e houve muitos profetas
– e, dentre as mulheres, as mais
completas são cinco; a primeira
delas é a Virgem Maria”.
Um dos grandes capítulos do Alcorão
se chama Capítulo de Maria, é
ali que você vai ver sobre a Virgem
Maria, sobre os pais da Virgem Maria
questões que você não
encontra na Bíblia, nem no Velho,
nem no Novo Testamento. Sobre o nascimento
de Jesus, sobre a profecia de Jesus,
sobre a mensagem que veio ao profeta
Jesus, de ele nascer de mãe sem
pai, de falar quando recém-nascido,
de ressuscitar os mortos, curar o leproso,
curar o cego, tudo poder de Deus. São
milagres que Deus deu a Jesus para mostrar
ao seu povo que ele era um profeta.
O único ponto de divergência
entre nós e os cristãos
em relação a Jesus é
que Jesus não foi o filho de
Deus; para nós, foi um grande
profeta e não foi crucificado.
José
Arbex Jr. - Eu queria voltar
a uma declaração sua que
me surpreendeu. O senhor disse que não
existe nenhum governo islâmico
hoje. Quero saber se isso é porque
nenhum governo corresponde a cem por
cento daquilo que diz o Alcorão
ou se é porque, para existir
um governo realmente islâmico,
primeiro tem que ter a Umma. Enquanto
não existir a Umma, não
haverá governo islâmico,
é isso?
Sheik
Ali Abdune - Bom, a gente vai
sair um pouco, depois voltamos na questão
dos princípios. Governo islâmico
que governa cem por cento pelas leis
do Alcorão não temos hoje.
Temos países que governam com
algumas leis islâmicas, uns até
com a maioria, como a Arábia
Saudita, mas você pode perceber
que muitas questões eles não
levam em relação à
religião islâmica. A Umma
existe, a Umma forma a nação
islâmica, a nação
islâmica existe. Um dos milagres
do profeta Muhamad foi mostrar que este
tempo que estamos passando agora, esse
Hadith vai tirar toda a dúvida
do pessoal em relação
ao governo islâmico: ele disse
que durante quarenta anos teríamos
um governo islâmico cem por cento,
e tivemos os quatro primeiros califas,
que governaram nesse período.
Ele disse também que depois desses
quatro califas, depois desses quarenta
anos, teríamos um governo islâmico
baseado no poder de pai para filho,
que o pai entrega para o filho. Tivemos
isso no governo dos omíadas,
dos abássidas, até o último
governo, que seria o otomano. O profeta
disse que isso se prolongaria por um
tempo grande e depois teríamos
governos ditadores. Surgiriam por um
período curto, e depois teremos
novamente um governo islâmico
que governará naquilo que o Alcorão
prega.
José
Arbex Jr. - O Taleban, por
exemplo, não é islâmico?
Sheik
Ali Abdune - Hoje, você
não pode falar para ninguém
que não é islâmico.
Se eles falam que são muçulmanos,
quem somos nós para falar que
o Taleban é islâmico ou
não, ou os libaneses são
ou não, os árabes são
ou não? Toda pessoa que se diz
muçulmana, para nós, é
muçulmana.
José
Arbex Jr. - Agora o senhor
está usando um truque de linguagem.
O senhor disse que nenhum governo é
completamente islâmico.
Sheik
Ali Abdune - Mas o Taleban
governa um país e, se falamos
do governo islâmico real que queremos,
esse será o que governa todos
os países muçulmanos,
não um país independente.
José
Arbex Jr. - Por isso perguntei
se tem que haver um único governo
muçulmano.
Sheik
Ali Abdune - Isso, um só
que abranja toda a Umma. A Umma existe,
só que há essas divisões
desses países.
Carlos
Azevedo - O que é a
Umma?
Sheik
Ali Abdune - A Umma é
a nação, a palavra Umma
significa “nação
islâmica”.
Carlos
Azevedo - Que envolve o Estado
e a religião, não há
separação?
Sheik
Ali Abdune - Para nós,
na religião muçulmana
não há separação
entre o Estado e a religião.
Marina
Amaral - O senhor vem falando
da literalidade ou não do Alcorão.
Isso me parece particularmente importante
na questão das mulheres. Há
lugares na Arábia Saudita onde
elas são terrivelmente oprimidas
– não podem dirigir, não
podem sair sem a permissão do
pai ou do marido. Mas as próprias
feministas muçulmanas usam o
Alcorão como arma. O que elas
dizem é que os que estão
oprimindo a mulher não respeitam
o Alcorão. Porque – embora
esteja estabelecida a diferença
natural do sexo mais ou menos como os
orientais todos – há uma
igualdade de direitos e deveres entre
homens e mulheres muito bem estabelecida
no Alcorão.
Sheik
Ali Abdune - Em relação
às mulheres, a religião
muçulmana foi a primeira que
deu a elas todos os direitos, que os
preservou dentro do Alcorão estabelecido
por Deus, e homem nenhum – machista,
não machista – poderá
tirar essas leis. Elas são claras
e um dos grandes capítulos do
Alcorão é chamado Capítulo
das Mulheres, onde esses direitos foram
preservados há catorze séculos.
Naquele tempo, como vivia a mulher na
religião judaica, na cristã,
entre os romanos, os persas? Até
hoje a mulher está pagando para
conquistar alguns dos direitos que a
mulher muçulmana tem há
catorze séculos. Vamos citar
exemplos: desde esse tempo, a mulher
muçulmana tem o direito de voto
completo. A mulher ocidental, aqui no
Brasil, só teve esse direito
na década de 30, conseguiu meio
voto. Na década de 70 é
que conseguiu o voto completo, depois
de sair reivindicando os seus direitos.
A mulher muçulmana há
catorze séculos tem o direito
de herança, quando mãe,
quando irmã, quando filha, quando
esposa. Enquanto até hoje, aqui
no Brasil, a mãe, se o filho
morrer, não tem direito à
herança do filho. Em relação
ao direito de escolher o parceiro: ela
tem o mesmo direito do homem. Ninguém
pode obrigá-la a escolher o parceiro.
É diferente do que se vê
na novela.
Marina
Amaral - O senhor é
consultor da atual novela da Globo,
não é?
Sheik
Ali Abdune - Em algumas partes,
só que o texto, muitas vezes,
foge um pouquinho dessa questão
religiosa. A questão cultural,
no Egito, no Marrocos, está sendo
mais usada do que a religiosa.
Marina
Amaral - Seria o papel da mulher
nessas culturas.
Sheik
Ali Abdune - Em algumas tribos,
que podem ter ali muçulmanos,
cristãos, judeus e outras religiões.
Georges
Bourdoukan - É importante
que as pessoas saibam que tribos não
são só de muçulmanos.
Tem tribos cristãs, judaicas,
e as muçulmanas.
Marina
Amaral - E mesmo a castração
feminina, do clitóris, não
é muçulmana, é
inclusive de tribos cristãs na
Etiópia, na Eritréia.
Sheik
Ali Abdune - Exatamente. É
pré-islâmica essa tradição,
o Islã veio para proibir essa
tradição, mas isso tem
sido jogado em cima do Islã.
Marina
Amaral - No Alcorão
se diz que o marido deve dar prazer
à mulher e a mulher ao marido,
não é?
Sheik
Ali Abdune - Todo direito que
o homem tem, na religião muçulmana,
a mulher também tem. Ele e ela
têm o direito de escolher o parceiro.
E ela tem muito mais do que isso: ela
tem todo o direito de se divorciar,
se achar que não convive bem
com o marido. Essas pessoas que falam
“ah, é muçulmana,
só casa com casamento arranjado,
é o pai que obriga”, ora,
se eles obrigam de um lado, elas têm
o direito de se divorciar por outro
lado, e casar com quem quiserem.
Marina
Amaral - Acho que falta abordar
um preconceito muito importante. É
a idéia de que, para os islâmicos,
morrer matando e se matando é
ótimo: “Ah, você
vai ser um mártir e vai ter setenta
e tantas virgens”. Essa idéia
eu gostaria que o senhor explicasse
como funciona na realidade.
Sheik
Ali Abdune - Tudo bem. Só
deixa eu terminar a questão da
mulher e vou entrar nessa questão
da guerra também. O Islã
restringe algumas questões pelo
benefício da mulher. A vestimenta,
seja num calor de 40 graus ou de 50,
isso é uma opção
dela. Elas usam por convicção
mesmo. E por que essa vestimenta? Em
respeito. O Islã acha que a mulher
é um ser que deve ser respeitado,
não pode ser assediado nem pelos
olhos, nem pelas palavras, nem pelos
movimentos. Temos um grande respeito
pela mulher e esse respeito é
que leva o Islã a preservar a
mulher dessa maneira. Dentro da sua
casa, ela tem toda a liberdade com seus
íntimos de se pintar, de andar
decotada, de short, de camiseta, sem
roupas, o que ela quiser. Já
fora, eu, particularmente, não
queria que a minha mãe ou a minha
filha ou a minha irmã saíssem
e que as pessoas as ficassem assediando,
nem com os olhos e nem com as palavras.
Eu exijo esse respeito, e elas certamente
vão compreender. Não posso
obrigá-las. A religião
muçulmana é toda por convicção
e no Alcorão sagrado não
há imposição quanto
à religião. Porque, se
houvesse imposição, os
muçulmanos teriam imposto a religião
a todos os cristãos que viviam
no Império Islâmico. À
Europa toda teria sido imposta a religião
muçulmana. Dentro do casamento,
um muçulmano casado com uma judia
ou com uma cristã, o Islã
não exige que ela se converta.
Exige é respeito a ela. Se ela
quiser ter um crucifixo, uma estrela
de Davi, se vai ler a Torá ou
o Evangelho, o homem muçulmano
tem como obrigação respeitar
as idéias dela e tudo o que ela
pratica. Ela tem a opção
de trabalhar, só que em lugares
onde não se exponha ou que possam
prejudicá-la. Por exemplo, ser
estivadora no porto de Santos. Isso
o Islã não permite, porque,
mesmo que ela aceite, isso está
indo contra a natureza dela. Agora,
se quiser trabalhar como médica,
professora, jornalista e outras funções
que estão ao seu alcance, o Islã
incentiva. Ela é obrigada a estudar,
não a trabalhar. Dentro do lar,
ela não é obrigada a cozinhar
para o marido, a lavar, a passar roupa.
Os direitos dela estão no Alcorão
e na doutrina do profeta Muhamad. Se
ela for para qualquer sheik e falar
“olha, meu marido me obriga a
fazer isso e eu quero os meus direitos
completos aqui na minha frente”,
ele os coloca e ela tem todo o direito.
E o homem tem a obrigação
de cumpri-los ou trazer alguém
que os cumpra. Agora, se ela faz isso
por espontânea vontade, por amor
ao marido, isso o Islã não
impede.
Michel
Gordon - Não existem
tendências, não existe
um Islã moderado, liberal, conservador?
Sheik
Ali Abdune - Todo muçulmano
– como já falamos e vamos
repetir – deve seguir as mesmas
linhas. Se falarmos radical ou fundamentalista,
as pessoas entendem que são palavras
erradas. Pelo contrário, se você
é jornalista e é radical
e fundamentalista no seu trabalho, você
é bem-vindo, está fazendo
um trabalho bom. Se ele é professor
e é radical e fundamentalista
na profissão dele, devemos dar
os parabéns. Agora, fanatismo,
isso é que não pode existir.
Mas o radicalismo, o fundamentalismo
é você ir a fundo naquilo
em que você crê.
Carlos
Azevedo - É verdade
que os muçulmanos são
fatalistas? Um amigo meu esteve no Afeganistão
na década de 80 e conta que havia
vários bombardeios e as pessoas
ficavam sentadas tomando chá,
a bomba caía a 20 metros de distância
e ninguém se mexia, ele dava
o maior pulo, porque o chão tremia,
e eles diziam: “Não tenho
medo porque não é comigo,
a minha hora já está marcada”.
Como é essa a questão?
Sheik
Ali Abdune - Tínhamos
começado com os princípios
islâmicos e ia entrar essa questão,
só que fomos saindo e entrando,
não é? Porque os princípios
islâmicos são crer em Deus,
nos anjos, nos mensageiros, nos livros
sagrados, no dia do juízo final
e no destino, o sexto pilar. A questão
do destino: tudo é predestinado
por Deus, só que o destino se
divide em duas partes. Tem uma que você
não tem como interferir nela
– quando nascer, quando morrer,
tudo isso está na mão
de Deus. E na outra você pode
interferir, mesmo sendo prescrito por
Deus – é a questão
das suas atitudes. Você sabe o
caminho do bem e o caminho do mal, é
obrigado a seguir o caminho do bem,
só que pode tomar, por opção,
o caminho do mal. É você
escolher o seu destino, só que
no final você sabe que será
julgado conforme as suas atitudes. O
que não quer dizer que vá
me jogar de um prédio e falar
que é o meu destino.
Mamede
Mustafá Jarouche - O
suicídio é proibido.
Sheik
Ali Abdune - É totalmente
proibido.
Carlos
Azevedo - Você pode
dizer então que o ataque às
torres foi legítima defesa?
Sheik
Ali Abdune - Não, não,
vamos chegar nas torres. Estou começando
a partir do Brasil. A primeira coisa
que aprendi quando pequeno na escola
foi o Hino Nacional. O que falamos no
Hino Nacional? Você vai falar
que o Brasil ensina o terrorismo: “Ou
viver a pátria livre ou morrer
pelo Brasil”.
Carlos
Azevedo - Esse é o Hino
da Independência.
Sheik
Ali Abdune - Hino da independência.
Isso. E também “Independência
ou morte”.
Mamede
Mustafá Jarouche - E
a questão das torres?
Sheik
Ali Abdune - Condenamos esse
ato contra as torres porque é
um ato criminoso contra a humanidade,
foram mais de 5.000 inocentes, dentre
eles mais de quinhentos muçulmanos
que estavam dentro delas. Dentro daquele
prédio tinha uma mesquita que
era freqüentada, nas sextas-feiras,
por mais de 1.500 fiéis muçulmanos,
que foi também pelos ares.
Marina
Amaral - Havia uma mesquita
lá dentro?
Sheik
Ali Abdune - Dentro do World
Trade Center. O que não podemos
é suspeitar, a suspeita no Islã
é proibida. Suspeitar que foi
você sem provas concretas é
um pecado, agora, supor e jogar as suspeitas
nos líderes... naquele dia se
ausentaram 4.500 judeus do trabalho,
eu não sei, há uma suspeita.
Marina
Amaral - A Al Jazira é
que falou isso. Alguns jornais deram
a notícia logo em seguida, mas
depois ela desapareceu do noticiário,
sem confirmação.
Sheik
Ali Abdune - Não, não
é a Al Jazira. São suspeitas.
Só que essas suspeitas não
poderemos julgá-las antes de
termos provas concretas. Naquela torre
todos são suspeitos, os judeus,
os cristãos, os muçulmanos,
os ateus, os budistas, o Exército
Vermelho japonês, cinco vezes
eles ligaram para os Estados Unidos
dizendo que foram eles os autores, só
que ninguém levou em consideração.
Cinco vezes dizendo: “Somos os
autores, somos os autores”. Por
que eles não levaram em consideração,
sendo que tem uma grande ligação?
A bomba de Hiroxima foi jogada lá.
Carlos
Azevedo - Seria a resposta.
Sheik
Ali Abdune - Não poderia
ser? Só que nós, muçulmanos,
não poderemos julgar, nem esses,
nem aqueles, até serem mostradas
as provas concretas. Antes disso, nada
justifica eu julgar o Bin Laden, o Taleban,
ou os brasileiros, ou os chineses, ou
os árabes, ou os judeus. Coloque
provas concretas, que estaremos juntos
comba-tendo esses autores, porque o
Islã é contra esse tipo
de agressão.
Marina
Amaral - Os atentados de setembro
não são os únicos
atentados suicidas de que se tem notícia,
já há os de autoria conhecida,
dos homens-bomba do Hizbollah, a história
é um pouco mais complicada.
Sheik
Ali Abdune - Vamos lá.
Fora dos países muçulmanos,
os muçulmanos foram acusados
pelo atentado em Oklahoma. E foram muito
perseguidos, mas depois se viu que os
autores verdadeiros eram americanos.
Só que aí foi escondida
a questão: “Não,
deixa de lado”.
Entrevistadores:
Marina Amaral, Mamede Mustafá
Jarouche, Michel Gordon, José
Arbex Jr., Georges Bourdoukan, Carlos
Azevedo. |